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Audiência na Câmara de Ipatinga propõe união por justiça ambiental e social


Publicada em 03/04/2025 14:53

Audiência na Câmara de Ipatinga propõe união por justiça ambiental e social

Evento presidido pela vereadora Cida Lima reuniu especialistas, lideranças religiosas e movimentos sociais em defesa da ecologia integral e de ações concretas diante dos desastres climáticos

 

A Câmara Municipal de Ipatinga realizou, nesta terça-feira (2), audiência pública com uma importante pauta: Fraternidade e Ecologia Integral. A iniciativa, proposta e presidida pela vereadora Professora Cida Lima, teve como norte a Campanha da Fraternidade 2025, que propõe à sociedade brasileira uma reflexão sobre a relação humana com o meio ambiente, à luz do conceito de “ecologia integral”. Segundo a temática da Campanha, esse conceito, cada vez mais presente nas discussões contemporâneas, parte do princípio de que o cuidado com a criação exige responsabilidade coletiva – social, política e espiritual –, além de um compromisso ético com as futuras gerações.

Com ampla presença popular, a audiência reuniu importantes nomes da região, representantes de movimentos sociais e lideranças religiosas. Estiveram presentes na mesa de honra o biólogo Vitor Batista, representante do Parque Estadual do Rio Doce; o coordenador de pastoral do Regional 3 e pároco da Paróquia Cristo Libertador, Padre Flávio; o diretor da Associação Ambientalista Samambaia (ASAS), Antônio Mendes; Thais Martins, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB); e Dom Marco Aurélio, bispo da Diocese de Itabira-Coronel Fabriciano. A pluralidade dos convidados contribuiu para a o debate e reforçou "a necessidade de uma abordagem interdisciplinar diante dos desafios ambientais enfrentados por Ipatinga e pela região".

Vozes do debate

Durante as falas, o ambientalista Antônio Mendes alertou para o agravamento da crise climática no Brasil, destacando com preocupação o cenário em Minas Gerais e, especialmente, em Ipatinga. Mendes apresentou dados que revelam o impacto crescente das queimadas na região, com efeitos diretos na qualidade do ar e, consequentemente, na saúde da população. Ele também rememorou os eventos trágicos causados pelas fortes chuvas de 12 de janeiro deste ano, que atingiram diversos bairros da cidade, evidenciando a urgência da adoção de políticas públicas preventivas e estruturais voltadas à mitigação dos desastres ambientais.

Na sequência, o biólogo Vitor Batista compartilhou sua experiência no Parque Estadual do Rio Doce, uma das poucas áreas remanescentes de Mata Atlântica preservada no país. Em sua fala, ele ressaltou a importância de preservar o que ainda resta, não apenas como uma medida de proteção ambiental, mas como um ato de responsabilidade social. “O PERD é uma das joias que ainda resistem dentro desse cenário de devastação”, destacou.

A palestrante Thais Martins destacou que o MAB é um movimento social nacional, presente em 21 estados brasileiros, com 34 anos de existência, atuando na organização de atingidos por seca, enchentes, rompimentos de barramentos e grandes açudes. Explicou que o movimento atua na Bacia do Rio Doce em diversas frentes, com especial ênfase no desastre da barragem de Fundão, em Mariana. Thais ressaltou que o MAB é um movimento diverso, que mantém relação com todos os grupos que respeitam a vida, a democracia e a natureza. “Temos na Igreja Católica uma referência e parceira na Campanha da Fraternidade, pois partilhamos dos mesmos princípios”, afirmou. Diante da realidade atual e do lema da Campanha da Fraternidade de 2025, que aborda a ecologia integral, ela defendeu a colaboração entre o MAB, a Igreja Católica e demais instituições conscientes de que não é possível discutir ecologia sem reconhecer que vivemos numa sociedade capitalista que prioriza o lucro acima da vida. Em sua fala, citou Eduardo Galeano: “A ecologia neutra, que mais se parece com jardinagem, torna-se cúmplice da injustiça em um mundo onde a comida sadia, a água limpa, o ar puro e o silêncio não são direitos de todos, mas sim um privilégio de poucos que podem pagar por eles.” Thais também recordou a luta de Chico Mendes, lembrando que o trabalhador da borracha foi assassinado por acreditar que a militância ecológica não pode, jamais, se divorciar da luta social.

Mesa de honra da audiência pública na Câmara de Ipatinga reúne representantes de instituições ambientais, movimentos sociais e lideranças religiosas

 

Já Dom Marco Aurélio conduziu sua fala a partir da espiritualidade da criação, lembrando que o ser humano é, ou deveria ser, parceiro de Deus na manutenção da vida na Terra. “Somos parceiros de Deus na criação, mas muitas vezes esquecemos disso. O que vimos em Ipatinga com as chuvas de janeiro são consequências da injustiça social. Deus perdoa, mas a natureza, não”, afirmou, provocando uma importante reflexão sobre os custos da negligência humana frente às mudanças climáticas. O Padre Flávio, por sua vez, chamou atenção para o papel das instâncias públicas e da participação popular como ferramentas fundamentais na construção de uma ecologia integral, que, segundo ele, deve ser feita a partir do acolhimento e da integração entre diferentes setores sociais. “Cabe a nós, tomados de consciência, construir uma Ipatinga melhor”, declarou.

Encaminhamentos e apelos por soluções

Mas a audiência não se limitou à análise crítica e aos diagnósticos. Encaminhou-se também para proposições e ações concretas. A vereadora Cida Lima apresentou um conjunto de medidas já em andamento por seu mandato em resposta às consequências das chuvas de janeiro. Entre elas, destacam-se ofícios enviados ao Poder Executivo solicitando reuniões e apresentando questionamentos diretos, a proposição de um requerimento formal à Câmara Municipal e o encaminhamento de uma denúncia ao Ministério Público. No entanto, a parlamentar lamentou que o município ainda não tenha respondido às solicitações e que o requerimento, mesmo com votação expressiva, tenha sido derrubado pela maioria dos vereadores. Ainda assim, Cida reafirmou seu compromisso com o diálogo e a persistência na busca por soluções efetivas para os problemas enfrentados pela população atingida.

Um dos momentos mais intensos da audiência ocorreu quando a palavra foi aberta à população. Diversas famílias atingidas pelas chuvas estiveram presentes e, por meio de uma escuta ativa e democrática, apresentaram encaminhamentos significativos. Ângela, uma das atingidas, relatou ter perdido todos os móveis durante as chuvas de janeiro e fez um apelo ao Prefeito Municipal por um momento de diálogo. Em sua fala, lançou questionamentos urgentes: “Como vai ficar a minha situação? Tenho dois filhos deficientes e preciso de ajuda. Estamos gritando por socorro.”

Plenário da Câmara de Ipatinga lotado durante audiência pública sobre Fraternidade e Ecologia Integral, marcada por ampla participação popular

 

Vander, por sua vez, reivindicou a implementação das prioridades aprovadas na 15ª Conferência Municipal de Meio Ambiente, com ênfase na criação de uma secretaria exclusiva para a área ambiental e no fortalecimento do CODEMA. Propôs também a realização de uma plenária com os atingidos e a formação de uma comissão com representantes dos diversos segmentos da sociedade – deputados, igrejas, sindicatos e o mandato da vereadora – para acompanhar as ações futuras.

Dom Marco Aurélio complementou os encaminhamentos, sugerindo a prática do ecumenismo e do diálogo inter-religioso com pautas sociais, reforçando que a defesa da casa comum não tem credo religioso. “É preciso trazer para essa luta pessoas que não professam nenhuma fé, mas que acreditam que devemos ser responsáveis pela nossa casa comum.”

Esses encaminhamentos, diz a parlamentar, somados às demais contribuições feitas ao longo da audiência, "demonstram a força do encontro enquanto espaço de escuta, mobilização e proposição. A diversidade dos convidados e participantes não apenas enriqueceu o debate, mas apontou para a necessidade de uma abordagem inclusiva, transversal e comprometida com a transformação real da cidade".

Ao final da audiência, a vereadora Professora Cida Lima reafirmou também que o Legislativo pode até parecer um espaço solitário, mas que a participação de cada pessoa é fundamental. “A audiência mostrou que a gente não está só. Sigamos lutando pela nossa casa comum.”

 

 

 

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